quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Restaurante na sala de jantar – Revista Época

Restaurante na sala de jantar
Mania em Nova York, os speakeasies, estabelecimentos clandestinos – e sofisticados – em residências comuns começam a ganhar adeptos no Brasil
Andres Vera



 
Um jantar no apartamento de Jeremy Townsend, do Ghetto Gourmet.A comida é boa e a formalidade zero.


Todo mundo já ouviu falar de restaurantes exclusivíssimos, que exigem reservas com semanas de antecedência. Poucos, porém, já foram a algum que funcione dentro de uma residência comum e só receba clientes convidados. Eles costumam se esconder atrás de fachadas discretas em grandes cidades ou dentro de condomínios residenciais em bairros de subúrbio. É como se no apartamento de seu vizinho uma clientela Vip estivesse saboreando um jantar digno dos restaurantes mais estrelados – e caro.


Esse tipo de restaurante é mania na Europa e nos Estados Unidos, berço do movimento batizado como The Ghetto Gourmet. “As pessoas se cansaram da fórmula tradicional”, disse Jeremy Townsend a ÉPOCA (leia abaixo). Segundo ele, o que os gourmets buscam é um lugar onde se sintam em casa para comer e beber entre amigos, sem a ostentação dos restaurantes caros, mas com o mesmo tipo de cozinha refinada. Pouco importa que esses lugares não tenham licença para funcionar.


Os restaurantes underground, como são chamados, reúnem o espírito da confraria gastronômica ao charme da transgressão secreta…
…Esse tipo de casa começou a virar uma opção de negócio para chefs de cozinha que cansaram da vida dura dos restaurantes convencionais. É o caso de Michael Hebberoy, chef que abandonou seu bistrô em Portland, nos Estados Unidos, para se dedicar ao improviso do speakeasy. Quando começou a reunir comensais na sala de jantar de um minúsculo apartamento alugado…
…A maior crítica de Hebberoy é em relação à sisudez dos restaurantes, onde a promessa de satisfação à mesa foi aos poucos trocada pelo excesso de formalidade e pelo esnobismo – o que não combina com o prazer.
“É bem melhor comer bem num ambiente realmente confortável, como sua casa”, diz. Críticos de gastronomia já têm publicado resenhas de casas clandestinas. A tendência nem sempre é vista com bons olhos. “Esses lugares podem replicar o jeito excludente de qualquer casa noturna chata”, diz Ligaya Mishan, da revista New Yorker.


A onda já chegou ao Brasil. Em São Paulo, já é possível encontrar comida mexicana, festivais de paella espanhola e até sobremesas francesas na casa de gente que recebe amigos e desconhecidos pelo menos uma vez por mês. “Um restaurante é impessoal. Minha casa com lareira, não”, diz a chef Flavia Greco. No mês passado, ela abriu as portas da casa para uma degustação de sopas e cremes. Os convites foram enviados por e-mail apenas a conhecidos.


O mais famoso dos speakeasies paulistanos funciona às quintas-feiras no ateliê de restauração de livros da artista plástica Liège Monteiro. No andar de cima de seu sobrado, em São Paulo, ficam os quartos e banheiros de uma casa comum. Nas salas do piso térreo, porém, até cem pessoas se aglomeram em busca de petiscos e caipirinhas. “Não fiz nada de especial, e minha casa virou uma tendência”, diz Liège, em tom de surpresa. Ainda que uma banda toque ao vivo, o ambiente tem uma evocativa sensação de “lar”. Por enquanto, o lugar é um charmoso “fora da lei”.

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